O Que Significa Ter Agency
Encontrei a palavra agency em um post sobre assumir o controle da própria carreira. Eu conhecia o significado comum em inglês, mas não a ideia por trás dela na psicologia. Quanto mais eu lia, mais ela descrevia algo em que eu já pensava havia anos.
O psicólogo Albert Bandura define agency como a capacidade de agir intencionalmente no mundo (Bandura, 1989). É nossa capacidade de influenciar acontecimentos em vez de apenas reagir a eles.
Não existe uma tradução exata que soe natural em português. “Agência pessoal” e “senso de agência” aparecem na literatura, mas vou manter o termo em inglês neste texto.
As Quatro Propriedades da Agency
Bandura identifica quatro propriedades da agency humana (Bandura, 2006):
Intencionalidade é decidir agir com um propósito. Você escolhe uma direção em vez de seguir o que acontece ao redor.
Previsão é olhar adiante. Você define objetivos, antecipa resultados prováveis e usa esse futuro imaginado para orientar suas decisões.
Auto-reatividade é transformar planos em ação. Você acompanha o progresso e muda de rumo quando o plano deixa de funcionar.
Auto-reflexividade é examinar o próprio pensamento e suas capacidades. Ela permite avaliar se suas escolhas ainda fazem sentido.
Juntas, essas propriedades descrevem as pessoas como participantes ativas da própria vida. Bandura argumenta que ajudamos a produzir nossas circunstâncias ao mesmo tempo que somos moldados pelo ambiente.
Sentir Controle e Ter Controle
O senso de agency é a sensação de controlar as próprias ações e suas consequências (Moore, 2016). A agency real é a influência que conseguimos exercer na prática. As duas nem sempre coincidem.
Uma pessoa pode ter opções úteis, mas se sentir incapaz de agir depois de fracassos repetidos. Outra pode se sentir no controle enquanto ignora limites que não consegue mudar. Entender agency exige olhar tanto para a percepção quanto para as circunstâncias.
Por Que Agency Importa
Um senso forte de agency pessoal está associado a bem-estar, resiliência, persistência e locus de controle interno (Bandura, 2006; Moore, 2016). O desamparo aprendido está no outro extremo: a exposição repetida a situações que não controlamos pode nos ensinar que agir não adianta, mesmo quando as circunstâncias mudam depois (Seligman, 1972).
Agency também torna o crescimento pessoal possível. Aprender uma habilidade, mudar de carreira ou estabelecer um limite começa pela crença de que uma decisão pode alterar o resultado. Essa crença precisa de evidências. Cada vez que você escolhe um objetivo realista, age e observa o resultado, entende melhor o que está sob seu controle.
Como Agency Aparece na Prática
No trabalho, agency pode significar propor uma abordagem melhor, negociar responsabilidades ou sair de uma função que não faz mais sentido. No aprendizado, significa escolher o que estudar e reservar tempo para isso sem esperar que alguém determine a tarefa.
Agency também pode ser limitada. Microgerenciamento remove o controle sobre como o trabalho é feito. Pobreza e discriminação reduzem as escolhas disponíveis. Relacionamentos abusivos costumam restringir dinheiro, contato social e rotinas diárias. Dizer para alguém “assumir o controle” significa pouco quando as próprias opções foram retiradas.
Por isso, agency não é independência total. Ninguém age fora das próprias circunstâncias. Fazemos escolhas dentro de limites, e esses limites variam muito de uma pessoa para outra.
Ideias Relacionadas
Agency se conecta a alguns conceitos da psicologia:
- Teoria da autodeterminação trata autonomia como uma necessidade psicológica básica.
- Locus de controle descreve se atribuímos os resultados principalmente às nossas ações ou a forças externas.
- Autoeficácia é a crença de que conseguimos realizar uma tarefa específica.
- Desamparo aprendido descreve o que pode acontecer quando nossas ações repetidamente não alteram o resultado.
Esses conceitos me ajudaram a separar agency de motivação. Querer algo não basta. Agency envolve escolher uma direção, agir, observar o resultado e ajustar o caminho. Ela pode ser praticada, mas também depende da existência de escolhas reais.
Essa é a parte útil da ideia para mim: prestar atenção no que posso influenciar, agir ali e reconhecer os limites que afetam a mim e às outras pessoas.
Referências
- Bandura, A. (1989). Human agency in social cognitive theory. American Psychologist, 44(9), 1175-1184.
- Bandura, A. (2006). Toward a psychology of human agency. Perspectives on Psychological Science, 1(2), 164-180. https://doi.org/10.1111/j.1745-6916.2006.00011.x
- Moore, J. W. (2016). What is the sense of agency and why does it matter? Frontiers in Psychology, 7, 1272. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2016.01272
- Seligman, M. E. P. (1972). Learned helplessness. Annual Review of Medicine, 23(1), 407-412.
- Stanford Encyclopedia of Philosophy. (2015). Agency. https://plato.stanford.edu/entries/agency/